Como receber os utentes de primeira vez na hemodiálise?

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Assim que um doente renal crónico é proposto para iniciar tratamento, seja hemodiálise, diálise peritoneal, transplante ou tratamento médico conservador, deve ser encaminhado para uma consulta de esclarecimento na unidade hospitalar de Nefrologia, constituída por elementos da equipa multidisciplinar, dos quais devem fazer parte, pelo menos, um nefrologista assistente, um enfermeiro, um técnico do serviço social e um nutricionista.

O objetivo desta consulta é que o utente seja esclarecido sobre as diferentes modalidades de tratamento e possa optar pelo tratamento que melhor se adapta às suas necessidades.

 

Utente em início de hemodiálise

A primeira vez que um utente ingressa numa unidade de hemodiálise pode ser deveras assustadora. Partimos do princípio que tudo é uma novidade para o mesmo e que transporta consigo muitos mitos e conceitos associados à hemodiálise, que podem não corresponder à realidade.

A verdade é que provavelmente não será fácil aceitar esta nova vivência, tanto para o utente como para os seus familiares/cuidadores, uma vez que exige uma adaptação física, psicológica e articulação com os horários e exigências do tratamento, que terá de ser gerido pelo mesmo e pelos seus entes próximos. 

A abordagem inicial e o acolhimento efetuado devem ser facilitadores desta adaptação e ajudar a reduzir alguns receios que o doente possa sentir.

Habitualmente o maior medo está na técnica em si, pela utilização de agulhas para punção da fístula ou prótese, de cada vez que fizer hemodiálise, que permitem a realização do tratamento. Se não haver fístula ou prótese, a opção será o cateter e, neste caso, não há punção com agulhas. Neste sentido, deverá ser explicado este procedimento e procurar tranquilizar informando da existência de técnicas e fármacos que permitem a redução da dor sentida no momento da punção.

A construção do acesso vascular é também um motivo de receio e ansiedade, que antecede o início do tratamento. Se o utente se sentir devidamente apoiado e preparado pela equipa de saúde, encara melhor este momento e pode ver reduzido o stressassociado à realização da intervenção cirúrgica.

Quando o utente ingressa no tratamento hemodialítico, é recebido na unidade de hemodiálise, sendo efetuada uma consulta médica antes de iniciar o primeiro tratamento, e realizado o acolhimento de enfermagem.

 

Informações para o utente

O acolhimento na unidade de hemodiálise passa pela prestação de um conjunto de esclarecimentos pelo médico e enfermeiro responsável e que está relacionado com o tratamento de hemodiálise que o utente está proposto a iniciar:

  1. conceitos relacionados com a doença renal crónica;

  2. em que consiste e como se processa o tratamento de hemodiálise;

  3. noções sobre o acesso vascular para a diálise e os cuidados a ter com o acesso vascular;

  4. horários do tratamento e a duração dos mesmos;

  5. realização do controlo analítico e do controlo dos valores de hemoglobina;

  6. medicação fornecida;

  7. controlo da ingestão hídrica;

  8. noção de peso seco;

  9. importância do controlo do potássio e do fósforo;

  10. realização, ou não, da atividade física.

 

Deve ser mostrado o espaço físico, a sala de diálise, a sala de espera dos utentes, a equipa que vai cuidar e acompanhar e que é constituída por: assistentes técnicos, médicos, enfermeiros, nutricionistas, assistentes sociais e assistentes operacionais.

O utente também deve ser acompanhado pelo nutricionista, o qual agenda consultas com uma periodicidade definida, e que deve esclarecer sobre a composição da dieta, os alimentos permitidos e os não permitidos e a importância clínica do controlo de determinados parâmetros laboratoriais influenciados pela alimentação do utente. 

O técnico de serviço social aborda as questões relacionadas com a deslocação para os tratamentos, direitos e apoios aos doentes renais crónicos, programação de férias e questões relacionadas com o trabalho. 

Apesar de cada profissional ter o seu papel, tal não implica que qualquer um dos profissionais de saúde possa esclarecer sobre os variados temas, uma vez que se articulam entre si e possuem pontos em comum.

O esclarecimento do utente pode ser feito em várias sessões, dada a quantidade e a complexidade da informação a apreender pelo utente. 

O fornecimento de um guia de acolhimento e informação escrita como adjuvantes, tanto ao utente como aos familiares/cuidadores envolvidos contribui para um adequada apreensão e adesão ao tratamento.

 

Na maioria das situações vividas pelos doentes renais crónicos, o início deste processo é difícil de aceitar e lidar dada a quantidade de informação fornecida e a alteração nas rotinas pessoais de cada um. É um desafio para o qual muitos não estão preparados, implicando um tempo de adaptação, que varia de acordo com cada um, com as suas expectativas e com os sistemas de apoio que tenham à sua volta. Desta forma, é essencial que toda a informação seja transmitida calmamente, de forma faseada e individualizada, assumindo particular importância a criação de um elo de confiança entre o utente e a equipa multidisciplinar. 

 

Raquel Videira - Enfermeira

Bibliografia:

  1. Ministério da Saúde. Norma da Direção Geral da Saúde nº 017/2011 de 28/09/2011, atualizada a 14/06/2012. Acedido a 16 de fevereiro de 2016, disponível em http://www.dgs.pt

  2. Centrodial – Centro de diálise de S. João da Madeira. Manual para insuficientes renais.2002.

  3. Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro E.P.E.Guia de acolhimento do Serviço de Hemodiálise de Vila Real.Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro E.P.E. Acedido a 16 de fevereiro de 2016, disponível em http://chtmad.com/panfletos/acolhimento_hemodialise-vilareal.pdf

Imagem de Vic via Flickr sob licença CC by 2.0