Automedicação na doença renal: a evitar?

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Por vezes, o conselho de um amigo ou familiar ou até a indução publicitária é suficiente para a toma de um medicamento com vista ao alívio de um qualquer sintoma incomodativo como uma situação dolorosa, por exemplo. Esta prática é definida como automedicação.

A automedicação é uma prática tão antiga como a própria civilização. Corresponde à utilização de medicamentos pelo utente, sob a sua responsabilidade, sem indicação médica1. Através da automedicação, o utente assume a responsabilidade pelo seu próprio cuidado, selecionando e utilizando os medicamentos que considera mais adequados para si.  

 

Em 1978, a declaração de Alma-Ata [2] (um dos documentos historicamente mais importantes no âmbito da Saúde Pública) postulava que “os cidadãos têm o direito e a responsabilidade de participar, individual e coletivamente, no planeamento e na implementação dos seus cuidados de saúde”. 

Nesse pressuposto, a automedicação deverá contribuir para [1]:

  • prevenir e tratar sinais e sintomas que não requerem uma consulta médica;

  • reduzir a crescente pressão sobre os serviços de saúde para o alívio de sintomas menores;

  • aumentar a disponibilidade de cuidados de saúde para populações onde o acesso a esses cuidados está dificultado;

  • capacitar os utentes a controlar o seu estado de saúde.

 

Na doença renal, os riscos associados à utilização de quaisquer medicamentos estão potenciados.

 

Todavia, “a prática da automedicação pode acarretar alguns problemas para os consumidores que resultam principalmente de uma inadequada utilização dos medicamentos, que, na maioria dos casos, resulta de uma informação inadequada e insuficiente e de uma cultura farmacoterapêutica não suficientemente consolidada” [3].

Apesar das possíveis ‘vantagens’ enumeradas anteriormente, a prática da automedicação pode conduzir a alguns ‘riscos’, nomeadamente [1,4]:

  • atraso ou engano no reconhecimento do problema de saúde, com possível agravamento do mesmo;

  • escolha de um medicamento potencialmente inadequado para o tratamento do problema, aumentando o risco de problemas relacionados com a medicação;

  • utilização de uma dose inadequada (insuficiente ou excessiva) do medicamento.

 

Na doença renal, a toma de quaisquer medicamentos só deve ser feita mediante a prescrição e/ou autorização pelo médico assistente.

 

Na doença renal, os riscos associados à utilização de quaisquer medicamentos estão potenciados.  Medicamentos como analgésicos a anti-inflamatórios, descongestionantes nasais, laxantes e antidiarreicos, antiácidos, entre outros (a maioria dos quais classificados como medicamentos não sujeitos a receita médica) estão presentes na maioria dos lares e fazem parte do quotidiano das pessoas. No entanto, o facto de um medicamento não necessitar de uma receita médica para a sua aquisição, não o torna ausente de riscos. 

Por essa razão, na doença renal, a toma de quaisquer medicamentos só deve ser feita mediante a prescrição e/ou autorização pelo médico assistente. Em caso de necessidade de utilizar outros medicamentos, mesmo para o alívio de sintomas ligeiros, o médico deve sempre ser consultado [5].

A automedicação deve ser evitada, particularmente com medicamentos que prejudicam o rim como os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), muitos dos quais não sujeitos a receita médica. O próprio paracetamol, o medicamento mais consumido em Portugal, em caso de sobredosagem pode provocar lesão renal aguda. 

 

O facto de um medicamento não necessitar de uma receita médica para a sua aquisição, não o torna ausente de riscos.

 

Neste contexto, a leitura do folheto informativo que acompanha cada medicamento é particularmente importante, já que permite de uma forma fácil identificar situações de utilização com “especial cuidado” desse mesmo medicamento, como a doença renal. Dessa forma, evita-se uma utilização potencialmente perigosa. 

 

Para concluir:

Na doença renal, a toma de medicamentos deve ser sempre feita com acompanhamento do médico assistente. O risco de interações, bem como de efeitos secundários sobre o rim, contra indicam a prática da automedicação.

 

 

André Coelho - Professor da área científica de Farmácia da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa (ESTeSL)

 

 

Bibliografia:

  1. World Health Organization. (1998). The Role of the Pharmacist in Self-Care and Self-Medication.[em linha]. Disponível em: http://apps.who.int/medicinedocs/en/d/Jwhozip32e/3.2.html [Consultado 6 agosto 2015]

  2. World Health Organization /UNICEF (1978). Primary health care: report of the International Conference of Primary Care.Geneva: WHO.

  3. Ministério da Saúde. (2003). Despacho n.º 2245/2003, de 16 de janeiro – Grupo de consenso sobre automedicação.

  4. Ruiz, M. E. (2010). Risks of self-medication practices.Current Drug Safety. 5(4):315-323.

  5. Pascual, M., Theruvath, T., Kawai, T., Tolkoff-Rubin, N. e Cosimi, A.B. (2002).Strategies to improve long-term outcomes after renal transplantation. The New England Journal of Medicine. 346(8):580-590.

 

 

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