Ricardo Cunha: a caminhada do desportista que agradece a Deus pela sua doença

 Equipa de profissionais do Hospital de São João que segue Ricardo Cunha

Equipa de profissionais do Hospital de São João que segue Ricardo Cunha


Chamo-me Ricardo Cunha, tenho 38 anos de idade, sou natural de Escariz São Martinho, em Vila Verde. Sou casado, exerço a profissão de segurança numa Loja do Cidadão. A doença renal crónica faz parte da minha vida e encontro-me atualmente em tratamento de substituição da função renal em programa de diálise peritoneal.

A minha doença faz parte de mim e, de alguma forma, define quem eu sou. Por isso, decidi partilhar a minha experiência com a doença renal crónica e dar a conhecer uma parte da minha vida. 

Sempre considerei o desporto como um fonte de bem-estar e saúde.

A relação com o desporto

A minha paixão pelo desporto começou logo na infância. Dedicava o meu tempo livre a modalidades desportivas, como o futebol federado, o futebol de salão e o cicloturismo. Sempre considerei o desporto como um fonte de bem-estar e saúde, contribuindo para o meu bem-estar físico e psicológico, autoestima, desenvolvimento e socialização.

Aos 19 anos ingressei na vida militar e cheguei a participar numa missão na Bósnia, em 2000. Passado um ano, abandonei a vida militar por motivos de natureza pessoal. Queria estar próximo da minha família, que é o meu pilar, e tinha o desejo de constituir família. Em setembro de 2001 passo a civil e inicio a minha atividade profissional como segurança.

Foi nesta altura que surgiram os primeiros sintomas da doença com a qual teria de aprender a conviver para o resto da minha vida: fadiga intensa, hematúria, infeções do trato urinário recorrentes, hipertensão arterial, entre outros, que determinaram o internamento no Serviço de Urologia do Hospital de São Marcos, em Braga. Fui observado pelo nefrologista Dr. Frazão que me reencaminhou para o Hospital de São João para a realização de exames específicos. 

 

Senti que não tinha feito nada de mal a ninguém para merecer uma doença grave e crónica!

A descoberta da doença

Este reencaminhamento para um hospital central deixou-me inquieto, com medo e uma mistura de sentimentos. Sentia segurança, dada a variedade de especialidades do Hospital, mas não percebia o motivo de ter que ser tratado num hospital desta dimensão. Parecia o prenúncio de algo muito grave. 

A biópsia renal confirma o diagnóstico de nefrite crónica. Inicialmente, não me pareceu um diagnóstico assim tão grave. Não tem o estigma nem o impacto de um cancro, não se vê objetivamente a doença, parece tratável, ainda que sem cura, a maioria das pessoas desconhece a doença e, por isso, acreditava que pudesse viver, de forma pacífica, com a dita nefrite. Pesquisei sobre a doença, ouvi o que os profissionais me disseram acerca da mesma, mas, na realidade, pouco retive. 

 
 Ricardo Cunha enquanto militar

Ricardo Cunha enquanto militar

 

Senti que não tinha feito nada de mal a ninguém para merecer uma doença grave e crónica! Permaneci incrédulo, sem noção da gravidade da doença. Durante algum tempo, pensei que se devia tratar de algum erro de diagnóstico ou podia ser uma infeção aguda, provavelmente adquirida durante a vida militar na Bósnia. Atribuí a culpa aos genes, mas nunca cheguei a ter a confirmação das causas da doença, o que me revoltou. Ainda que não mostrasse aos outros, senti uma revolta interior silenciosa.

Depois do diagnóstico seguiu-se o tratamento. Com os tratamentos senti-me melhor. Por isso, decidi manter a minha atividade profissional e comecei a praticar futebol de salão com os meus amigos. Confesso que estes momentos eram muito importantes para mim, porque convivia, sentia-me sem limitações e um bem-estar geral.

Nada nem ninguém me fazia parar, nem mesmo as lesões.

 O desporto como forma de luta

Os tratamentos com corticoterapia, que pretendiam diminuir a inflamação crónica do rim, traduziam-se numa panóplia de efeitos secundários difíceis de aceitar e tolerar, sobretudo os edemas e o ganho de peso. Para lutar contra estes efeitos, insisti na atividade física, de uma forma quase obsessiva. Era o meu escape para tudo o que me estava a acontecer, era a minha forma de luta, de resistência, de autossuperação e uma forma de apaziguar a minha revolta interior. Desafiei-me até ao limite. Comecei a prática de cicloturismo.

Apesar da equipa médica e da nutricionista, pelas quais era acompanhado, me incentivarem à prática do desporto, aconselhavam-me prudência e um cumprimento rigoroso do regime terapêutico. A hidratação e a reposição metabólica eram essenciais. Ensinaram-me a fazer preparados caseiros que ingeria sempre que aumentava a intensidade da prática desportiva.  

Em grupo, fui de bicicleta a Santiago de Compostela e a Fátima. Eram percursos de muitos quilómetros e de um desgaste enorme. Como homem de fé procurei sempre percursos convidativos à meditação interior, como se entregasse o meu sacrifício em busca da minha cura, como se procurasse alento e proteção divina para algo que ainda desconhecia e não aceitava.

Nada nem ninguém me fazia parar, nem mesmo as lesões que foram surgindo e alguns sinais esporádicos que o corpo me ia dando e que eram uma forma da doença se fazer sentir quando eu a queria esquecer. Ela estava presente de uma forma impiedosa e sem dar tréguas.

Em 2013 iniciei a prática de Trail Running, modalidade que me apaixonou de imediato, porque me fez lembrar a vida militar, através da corrida na montanha e o contacto com a natureza. Este desporto faz-me sentir livre. Seguiram-se provas semanais de intensidade e dificuldade progressivas. Iniciei com uma prova de 22 km de corrida na Serra D’Arga até a um limite máximo de 110 km. Competi com pessoas saudáveis, que consegui acompanhar, o que me aumentou o ego e a autoestima. Carregava comigo o sentimento de que era capaz. 

Os profissionais de saúde insistiam para reduzir a atividade, mas eu não podia, pois era o desafiar o meu corpo que me impedia de me entregar à doença.

Quando o combate à doença e a fé se tornam o motor

Corri intensamente até Santiago de Compostela, em três dias, deixando para trás peregrinos em bicicleta que ficaram admirados com a minha força e forma física. Cativei a minha esposa Natália, o meu irmão e os meus amigos para a modalidade. A Natália, atenta, procurou sempre acompanhar-me e motivar-me, mas também sentia preocupação e não queria que eu excedesse os meus limites. Ainda hoje sinto que não há limites para uma pessoa como eu.

Decidi correr por causas, pela minha causa. Investiguei e descobri associações que apoiavam doentes renais e procurei ajudar da forma que sabia, correndo. Por cada quilómetro percorrido fiz uma doação para a associação, para chamar a atenção da população para esta doença grave e crónica, na tentativa de diminuir o estigma associado à doença e incentivar as pessoas doentes a manterem-se ativas. Tornei-me sócio da Associação Portuguesa de Insuficientes Renais (APIR), dei formação e palestras, partilhei a minha história de doente crónico, ativo e desportista.

Em 2016, o meu corpo começa a dar sinais de falência. Surgiram as dores musculares, as cãibras, a anorexia, a fadiga, os edemas, que me atormentaram. Não fui capaz de aceitar esta fase, pelo que mantive a atividade física, apesar do desconforto que me provocava e da maior necessidade de recuperação do esforço. Os profissionais de saúde insistiam para reduzir a atividade, mas eu não podia, pois era o desafiar o meu corpo que me impedia de me entregar à doença, me fazia continuar vivo e a acreditar que era capaz de resistir a uma realidade de limitação, incapacidade e dependência. Não podia aceitar este destino, preferia a morte. Esta obstinação causava desconforto e discussões familiares, pois as pessoas que me amavam e que presenciavam de perto o sofrimento físico associado à prática desportiva exagerada face à minha condição de saúde, progressivamente mais debilitada, temiam que algo me acontecesse.

Decidi que a doença não ia vencer e que eu ia continuar a tentar viver o melhor possível e a fazer aquilo que sempre gostei.

A crua realidade

Em janeiro de 2017, o nefrologista comunicou-me que estava em falência renal (13% de funcionalidade renal) e pede que escolha um dos métodos de tratamento. Tinha a razão separada do coração e o que me dava alento para viver era a fé de que não teria de passar pelo que estava a suceder. Achei que estava tudo mal, que ia ficar condicionado e limitado. Optei pela diálise peritoneal, porque me dava mais autonomia e evitava deslocações obrigatórias às clínicas, onde via nos outros doentes a minha própria doença e o sofrimento e não conseguia aceitar isso. 

A doença não abrandou e a 18/05/2017 procedeu-se à exteriorização do cateter para a realização da primeira sessão de diálise peritoneal, após uma sequência de episódios de dor intensa e de um sofrimento físico intolerável. 

Nesta fase experimentei a depressão, visível através do vazio do olhar, do sorriso triste, da incapacidade e da falta de expectativas. A piorar todo este cenário passei por múltiplas intercorrências infeciosas relacionadas com o cateter que me martirizaram e amedrontaram.  

A certa altura, decidi que a doença não ia vencer e que eu ia continuar a tentar viver o melhor possível e a fazer aquilo que sempre gostei. Cerca de um mês após o início da diálise, iniciei caminhadas com o meu pai pelos caminhos da freguesia, arriscando por vezes uma corridinha. O meu pai tem estado sempre atento às minhas necessidades e é o meu eterno companheiro. O tratamento da diálise devolveu-me a força física e a tolerância ao esforço. Senti-me fisicamente melhor, com uma maior capacidade e tolerância à prática do exercício físico. Arrisquei correr e voltei a competir com pessoas saudáveis, na Minho Aventura, com os meus companheiros a acreditarem em mim e a incentivarem-me. Reiniciei as aparições públicas em março de 2018.

 
 Conquista do 1º lugar nos 5000 metros marcha no Europeu para Transplantados e Dialisados.

Conquista do 1º lugar nos 5000 metros marcha no Europeu para Transplantados e Dialisados.

 

Enquanto sócio da APIR tomei conhecimento dos Jogos Europeus para Transplantados e Dialisados e decidi abraçar esta aventura. No início estive renitente, pela expectativa de poder ser chamado para transplante e pelo encargo financeiro. Foi assim que nasceu uma campanha de divulgação da minha participação em jogos, de forma a conseguir obter alguns apoios. Durante a campanha dei a cara pela minha doença e procurei ser um exemplo a seguir. 

Nada me vai fazer parar. Agradeço a Deus todos os dias pela minha doença, na medida em que me abriu horizontes para algo muito maior.

 
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Cumpro rigorosamente a terapêutica prescrita, a dieta, a atividade, o repouso e os dois tratamentos diários de diálise. Estou consciente das minhas limitações, mas não quero que me limitem os sonhos e os projetos.

Ambiciono estar junto de outros doentes, trabalhando com eles na promoção de hábitos de vida saudáveis para que possam ter mais qualidade de vida na sua doença. Pretendo continuar a correr por mim, pela minha família e amigos, pelos doentes e pela causa de que há vida para viver após a diálise e o transplante.

Ricardo Cunha

 

 

Imagens: Fotografias de Ricardo Cunha gentilmente cedidos pelo próprio