Doar um rim é dar vida

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A história de uma dádiva que se tornou um movimento

 

Chamo-me Carlos Sacramento e esta é a história de dádiva de um rim ao meu irmão.

Na segunda metade da década de 1970 foi diagnosticada doença renal crónica ao meu irmão, João Paulo, tendo começado logo a fazer hemodiálise. Em 1989 fez o seu primeiro transplante. Tudo correu bem até 2013, altura em que o rim transplantado entra em falência, tendo sido hospitalizado para lhe tentarem salvar o rim, embora sem sucesso, voltando de novo à hemodiálise.

Eu e a minha irmã quisemos de imediato doar-lhe um rim, mas ele rejeitou.

Eu e a minha irmã quisemos de imediato doar-lhe um rim, mas ele rejeitou. Não porque não o quisesse, pois a oportunidade do transplante é o que os doentes renais mais desejam, mas porque tinha medo que a nossa vida pudesse de, alguma forma, correr perigo. Mas o nosso desejo era muito forte e com o apoio do Professor Doutor Alfredo Mota e da sua equipa, conseguimos convencer o nosso irmão a aceitar o que lhe queríamos dar. As emoções foram muitas, especialmente para o João Paulo.

Em setembro de 2015 deu-se início ao processo de consulta de dador vivo, com dois potenciais dadores – eu e a minha irmã. Acabei por ser eu o escolhido, e a 7 de março de 2017, o meu irmão foi transplantado com o meu rim.

Através do ciclismo/btt, quisemos divulgar a causa renal.

Eu e a minha irmã não quisemos ficar por aqui. O contacto com a doença do nosso irmão deixou-nos marcas que nos levaram a querer fazer mais do que lhe dar um rim. E assim, através do nosso desporto favorito, o ciclismo/btt, quisemos divulgar a causa renal. Graças a uma empresa portuguesa, a Cofides competição, foi possível a criação de um equipamento de ciclismo, a meu pedido, para nos ajudar na divulgação da nossa campanha “Doar um rim é dar vida”. Um agradecimento especial ao senhor Pedro Teixeira e à sua equipa da Cofides competição cujas palavras muito me emocionaram e pela grandeza do seu ato no apoio dado à campanha. O nosso objetivo é divulgarmos a causa renal através da prática do exercício físico.

Eu e a minha irmã decidimos criar uma página no Facebook intitulada “Doar um rim é dar vida” para homenagear todos aqueles que sofrem diariamente com a doença renal crónica e que têm a sua vida dependente de uma máquina que os ajuda a viver; a todos aqueles que, por altruísmo e amor ao próximo, doam um rim em vida e divulgar a causa renal.

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Como forma de agradecimento à equipa do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, que muito ajudou neste milagre da nossa vida e do nosso irmão, deixo aqui este texto da minha autoria.

“Da janela do meu pequeno mundo, eu olhei o mundo.

Interroguei-me de que forma eu poderia mudar o mundo!

Sabia não ser possível, mas sabia que podia mudar pequenos mundos, da mesma forma que uma gota de chuva pode mudar algo num oceano!

Sabia que no mundo lá fora estava frio, mas no meu pequeno mundo, eu estava tão quentinho e confortável!

Do lado de dentro da janela do meu pequeno mundo, eu conheci princesas, rainhas, príncipes e reis.

Descobri o que estes diariamente faziam, com a certeza de que não podiam mudar o mundo, mas garantidamente com a certeza de que mudavam pequenos mundos.

Também eles me fizeram sentir um deles com tudo aquilo que diariamente me davam, fazendo que estivesse sempre tão quentinho e confortável, ajudando-me desta forma a mudar o meu pequeno mundo, e depressa descobri a forma rápida e bela em que o mesmo se transformava!

Fizeram dele, em muito pouco tempo, um novo e saudável pequeno mundo!

Sabia que, brevemente, teria de partir, deixando para trás o conforto deste meu pequeno mundo!

Sentia tristeza por deixar aquele meu pequeno mundo, mas sentia que eles, as princesas, as rainhas, os príncipes e os reis, precisavam que eu partisse para poderem continuar sempre, mas sempre a continuar a mudar pequenos mundos, ajudando dessa forma a construir um mundo bem melhor, sabendo que seriam sempre, mas sempre, aqueles eternos desconhecidos, que jamais poderiam falhar!

Confortava-me saber que, sempre que eu quisesse, poderia visitar aqueles fazedores de milagres, que diariamente trabalham no piso 7, nos transplantes renais do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, e ver os novos pequenos mundos que iam construindo!

É com estas palavras muito simples, mas profundamente sentidas, que vos quero dizer “Obrigado!” a todos por me terem dado o grato privilégio de vos ter conhecido e convosco ter partilhado alguns dias da minha vida e por tudo aquilo que me deram, tornando bem mais fácil e aconchegante a minha simples missão que convosco partilhei!

Bem hajam!”

José Carlos Marques Sacramento

Carlos Sacramento tornou-se dador quando, após um primeiro transplante, o rim que o irmão recebera há mais de 20 anos deixou de funcionar. O empenho em salvar o irmão moveu-o e o envolvimento com a doença renal fê-lo criar um movimento a que chamou “Doar um rim é dar vida”.
Carlos Sacramento tornou-se dador quando, após um primeiro transplante, o rim que o irmão recebera há mais de 20 anos deixou de funcionar. O empenho em salvar o irmão moveu-o e o envolvimento com a doença renal fê-lo criar um movimento a que chamou “Doar um rim é dar vida”.

 

 

Imagens: Fotografias de Carlos Sacramento gentilmente cedidas pelo próprio