Atualmente, vivemos numa sociedade em que os estímulos são uma constante e as múltiplas tarefas constituem uma rotina diária. Os dias são compostos por inúmeras diligências profissionais, da esfera pessoal e familiar que têm de ser feitas e, quando não o são, ficam acumuladas dentro de cada um de nós, provocando sentimentos de culpa, de frustração, de zanga, etc. O trabalho é cada vez mais exigente e com pressões constantes face aos recursos pessoais e isto acaba por gerar stress.

Este é considerado um grave problema social e de saúde pública no século XXI, podendo ter consequências a diferentes níveis, nomeadamente, organizacionais e pessoais. Estas consequências revelam-se tanto ao nível intelectual como nas relações sociais e no respetivo comportamento organizacional, levando a elevadíssimos custos para os indivíduos e para as próprias empresas.

O stress entrou nas nossas vidas pelos diferentes media e é alvo de investigação científica e interdisciplinar há vários anos. Mas afinal o que é o stress? Este termo provém do verbo latino stringo, stringere, strinxi, strictum que significa apertar, comprimir e restringir. Esta expressão ganha novo significado a partir do século XIX quando passa a incluir a dimensão humana, quando até outrora este estava confinado ao que acontecia no mundo físico1,2.

Na visão contemporânea, o stress é visto como uma resposta necessária e adaptativa3 encontrando-se presente em todas as espécies com cérebro, culturas humanas, idades e em ambos os géneros.

São distinguidos dois tipos de stress, um considerado positivo, chamado “eustress”, que acrescenta excitação e desafio à vida das pessoas, proporciona felicidade, saúde e longevidade e o “distress” que acontece quando uma tensão não é aliviada e que conduz à destruição, à doença e à morte prematura4.

O stress excessivo torna-se prejudicial para a saúde e bem-estar dos indivíduos. O quadro 1 apresenta as principais consequências deste fenómeno.

 

Quadro 1 – Consequências negativas do stress2
  • Relembra emoções negativas perturbadoras.
  • Potencia o desenvolvimento ou agravamento de uma doença física e/ou psíquica.
  • Tem uma influência negativa na família, trabalho e vida social.
  • Ocasiona um maior número de acidentes de trabalho ou rodoviários.
  • Dificulta os processos de tomada de decisão.
  • Tem repercussões negativas em diferentes aspetos da vida de natureza económica.
  • Induz alterações do sono, vida sexual, metabolismo e sistema imunitário.

 

Como vimos anteriormente, o stress está presente nas diferentes sociedades humanas e, por isso, há a necessidade de aprender a lidar com ele através da utilização de diferentes recursos e estratégias com evidência científica, nomeadamente, modificar as vulnerabilidades do indivíduo, aprender a ter uma comunicação mais autoafirmativa, aprender exercícios de relaxamento, etc.2.

O leitor perguntar-se-á: “Mas como faço isso na minha vida?”. O primeiro passo é PARAR alguns minutos por dia para cuidarmos de nós próprios. Como diz David Kundtz no seu livro Parar – Como parar quando temos de continuar: Parar é uma técnica simples e fácil de “não fazer nada”, na medida do possível, durante um determinado período de tempo (um segundo ou um mês), para recordarmos quem somos e conseguirmos prosseguir de uma forma mais calma e perspetivada.5

Este comportamento de paragem permite olhar para nós e vermos quais são as nossas necessidades e como as vamos gerir durante o nosso dia, semana ou mês. É preciso aprendermos a cuidar de nós, a isto chama-se autocuidado. Algo que devia ser aprendido desde a infância e reforçado em contexto escolar.

O ato de cuidar está presente na vida dos seres humanos desde o nascimento e torna-se vital para a sobrevivência da espécie. Quando não se cuida promove-se o desequilíbrio que pode conduzir à morte.

É muito importante incorporar atividades de autocuidado na rotina diária, seguem-se alguns exemplos, como fazer uma caminhada, socializar com os amigos, dedicar tempo para cuidar do corpo e também da mente, ter tempo para descansar, etc. Sugiro um exercício para concretizar este aspeto.

 

Quadro 2 – Exercício
  1. Escreva atividades de autocuidado que considere interessante em vir a desenvolver a curto prazo (próxima semana).
  2. Coloque por ordem de interesse as mesmas e escolha as duas primeiras dessa lista para incorporar na sua rotina diária.
  3. Será importante verificar o impacto destas atividades ao nível do seu bem-estar físico e psicológico ao longo do tempo, para reajustar se for necessário.

 

 

Em suma:

O autocuidado serve para recarregarmos baterias, tal como fazemos com a bateria do nosso telemóvel para que ele fique operacional. Quando dedicamos algum tempo a nós mesmos, alimentando o corpo e a mente de forma profícua, estamos a investir em saúde e bem-estar.

Tal como o conceito de stress, o bem-estar está nas “bocas do mundo” moderno. Queremos todos sentir bem-estar e procuramo-lo em diferentes sítios. E fazê-lo porquê? Os investigadores dizem que este constructo, que integra saúde mental (mente) e saúde física (corpo), tem um papel importante na prevenção de doenças e promoção da saúde6.

Embora a definição de bem-estar seja ainda elusiva, existe um consenso geral de que, no mínimo, o bem-estar inclui7,8:

  • a presença de emoções e humores positivos (por exemplo, contentamento e felicidade);
  • a ausência de emoções negativas (ansiedade);
  • a satisfação com a vida;
  • a satisfação e o funcionamento positivo.

 

Em termos simples, o bem-estar pode ser descrito como um olhar positivo sobre a vida e a sensação de se sentir bem.

É importante salientar que o bem-estar é subjetivo e pode ser conquistado através de diversas atividades e experiências. Atualmente, a escolha é muita e diversificada, desde a massagem, meditação, atividades na natureza, retiros, etc. Cabe a cada um encontrar aquilo que lhe dá mais vitalidade e equilíbrio nas diferentes áreas da sua vida. A minha sugestão é que reserve alguns momentos do seu dia a fazer algo que lhe proporcione uma sensação de leveza e de bem-estar na sua vida. O seu futuro “Eu” agradecerá quando colher os frutos desta sementeira, porque como Eleanor Brown tão bem escreveu: O autocuidado não é egoísta. Não podemos dar-nos estando vazios.

 

Bibliografia e Notas:

    1. Mazure, C.M. & Druss, B.G. (1995). Does Stress Cause Psychiatric Illness? In Mazure, C.M. (ed) A historical perspetive on Stress and Psychiatric Illness (pp. 1-41). Washington, DC and London: American Psychiatric Press.
    2. Vaz Serra, A. (2011). O Stress na vida de todos os dias. In O que é o Stress? (pp. 1-41). Coímbra: Dinalivro, Distribuidora Nacional de Livro, Lda.
    3. Eriksen, H.R. & Ursin, H. (2006). Stress in Health and Disease. In Arnetz, B.B. & Ekman, R. (Eds), Stress – It is all the brain (pp.46-48). Wiley-VCH Verlag GmbH& Co. KGaA.
    4. Hespanhol, A. (2005). Burnout e stress ocupacional. Revista Portuguesa de Psicossomática, vol. 7, núm. 1-2, pp. 153-162.
    5. Kundtz, D. (2003). Parar – Como parar quando temos de continuar. In Coleção Xis livros para pensar, Parar à Velocidade da Luz (pp.15-55). Porto: Público.
    6. Dunn, H.L. (1973). High level wellness. Arlington: R.W. Beatty, Ltd.
    7. Andrews F.M. & Withey S.B. (1976). Social indicators of well-being. pp.63–1106. NewYork: Plenum Press.
    8. Ryff C.D.& Keyes C.L.M. (1995). The structure of psychological well-being revisited. Journal of Personality and Social Psychology 69(4):719–727.

 

Imagem:
de  Xavier Sotomayor via Unsplash