Susana Sampaio: de apaixonada pela medicina a presidente da Sociedade Portuguesa de Transplantação

 

A medicina surgiu de forma natural na vida de Susana Sampaio. Apesar de tudo, hesitou ao tomar a decisão final. Olhando para trás, acredita que foi a decisão mais acertada, tal como a escolha pela especialidade de Nefrologia. Hoje, é presidente da Sociedade Portuguesa de Transplantação (SPT), cargo que ocupa com um grande sentido de missão, acreditando que é possível fazer mais e melhor por esta causa, tendo em conta as importantes metas que já foram alcançadas ao nível nacional.

O Pelo Rim entrevistou Susana Sampaio e procurou saber um pouco mais sobre os desafios na área da transplantação, os avanços nesta matéria e as motivações da presidente deste organismo.

 

O que a motivou a escolher o curso de medicina?

Não é uma pergunta fácil de responder. Quando era jovem adorava matemática, principalmente na área de investigação, e chegou a ser quase uma opção, mas adorava o contacto com as pessoas e fisiologia humana, pelo que, à medida que os anos de liceu avançavam, a medicina começou a surgir como “a opção”. Confesso que na altura da inscrição ainda vacilei, mas a medicina falou mais alto e nunca me arrependi.

 

Porque razão escolheu a Nefrologia como área de especialização? 

A escolha de Nefrologia também não foi imediata. Adorava medicina interna, sendo aquela especialidade que integra todas as outras. No entanto, sentia que me faltavam um pouco de técnicas associadas. Na minha equipa de urgência, quando à época era o que se denominava de interno geral, correspondente agora ao Interno do ano comum (IAC), tinha um colega mais velho de Nefrologia com quem adorava discutir os casos clínicos e que acabou por influenciar a minha escolha. Hoje, também tenho a certeza de que escolhi o caminho certo.

 

O principal objetivo é divulgar à população geral, aos profissionais desta área e a todos os outros profissionais, a transplantação em Portugal.

 

O que significa para si ser presidente da SPT?

É um orgulho ser presidente da SPT. Iniciei a minha atividade na SPT pelas mãos do Dr. Morais Sarmento, que para mim foi sempre uma figura de referência da Nefrologia e, em particular, da transplantação. Foi ele a primeira pessoa a convidar-me para a sua lista e, desde então, tenho integrado as diversas listas, tendo sido vice-presidente no mandato do Dr. Fernando Macário. Dado que sempre vivi a SPT com bastante emoção e com muito orgulho, tive a felicidade de ter sido apoiada na minha candidatura que culminou com a minha eleição.

 

O que espera conseguir enquanto presidente da SPT?

O principal objetivo da SPT, e consequentemente o meu, é divulgar à população geral, aos profissionais desta área e a todos os outros profissionais, a transplantação em Portugal. Para além de iniciativas dirigidas à população geral através de campanhas ou eventos, é também um objetivo promover a formação dos profissionais de saúde, a investigação científica através da realização de reuniões e congressos, a atribuição de prémios e bolsas para a publicação de artigos e promover a investigação científica.

 

Portugal pode e deve orgulhar-se do seu lugar na Europa e no Mundo, no que diz respeito à sua atividade na área da transplantação.

 

Como vê a transplantação em Portugal?

Portugal pode e deve orgulhar-se do seu lugar na Europa e no Mundo, no que diz respeito à sua atividade na área da transplantação. Em relação à doação de cadáver, tem das melhores taxas de doação por milhão de habitante e em relação aos seus resultados, avaliados pela sobrevida do enxerto (órgãos) e dos doentes, compara-se aos resultados europeus. Existem unidades de Transplantação cardíaca, pulmonar, hepática, renal, rim-pâncreas e também já foi efetuado de intestino. Também existe, em Portugal, transplante de tecidos como medula, córnea e osso.

A doação em vida de rim também é possível em várias unidades de transplantação portuguesas e existe o Programa Nacional de Doação Cruzada Renal (PNDCR). Este programa permite que pares dador-recetor de rim que não possam prosseguir diretamente com a doação, o possam fazer através da inscrição num programa nacional que tenta arranjar um par compatível. Com este programa já foi possível efetuar transplantes que, de outra forma, não seriam possíveis.

Para que a transplantação tenha sucesso estão disponíveis, em Portugal, fármacos imunossupressores e técnicas que permitem tratar as rejeições. Por tudo isto, podemos dizer que, nesta área, estamos na vanguarda e com ótimos resultados.

 

De que forma se pode promover a dádiva em vida?

A promoção da dádiva em vida deve começar ao nível da consulta de Nefrologia, dado que é o órgão mais comummente transplantado de dador vivo. É nesta consulta, na consulta de informação de técnicas dialíticas e na consulta de pré-transplante, que este assunto deve ser abordado. Não sendo fácil para quem está doente falar sobre este assunto, a informação também deve ser dirigida aos familiares de um doente renal. As campanhas de informação sobre a dádiva em vida apresentadas nos meios de comunicação também são uma forma e muito poderosa de informação. Estas campanhas devem ter um caráter institucional. Lembro que, a única campanha até hoje efetuada para a dádiva em vida foi promovida pela SPT “Doar um rim faz bem ao coração”, no sentido em que doar um rim traz bem-estar emocional.

 

Os avanços nas técnicas têm permitido aumentar a dádiva de órgãos, que há uns anos atrás não eram implantados.

 

O tema deste ano do Dia Europeu da Doação de Órgãos e Transplantes consiste em dar esperança aos pacientes em lista de espera na Europa. De que forma se pode dar esta esperança?

Infelizmente, não existem órgãos disponíveis para todos os doentes em lista de espera, qualquer que seja o país europeu ou do mundo. Os avanços nas técnicas têm permitido aumentar a dádiva de órgãos, que há uns anos atrás não eram implantados. Novos imunossupressores, novos líquidos de perfusão de órgãos e novas técnicas de colheita têm feito expandir o pool de dadores, mas, infelizmente, nunca conseguem responder às necessidades.

A esperança deve ser dada no sentido de que na Europa todas as leis de alocação tentam ser as mais justas possíveis na atribuição de um órgão ao recetor e que a qualquer momento pode surgir um órgão para quem anseia por esse dia.

 

Portugal tem conseguido fazer avanços significativos na diminuição das listas de espera para transplantes?

Tal como em qualquer país do mundo, não existem órgãos disponíveis que consigam suprir as necessidades dos doentes em lista de espera. Tem havido estabilidade nos últimos anos. Programas como o PNDRC ou o início do programa de colheita em paragem cardíaca vieram ajudar a aumentar o número de doações e de transplantes.

 

É importante divulgar a possibilidade de doação em vida.

 

O que mais poderia ser feito?

Apesar destes programas, é necessário aumentar o número de dadores e, para isso, é necessário que as equipas das unidades de cuidados intensivos (local onde se encontram potenciais dadores) tenham elementos suficientes, por forma a poderem não só sinalizar os potenciais dadores, mas também manter os cuidados até que a colheita seja possível. Algumas equipas estão a trabalhar muito no limite e não possuem elementos para que possam cuidar de um dador quando têm ao lado uma pessoa viva para cuidar…

Também é importante divulgar a possibilidade de doação em vida e, para isso, é necessário que ao nível institucional se promovam campanhas de esclarecimento e de incentivo à dádiva.

 

Uma mensagem para todos os profissionais da área da transplantação.

Quem trabalha nesta área desde sempre sabe que o sorriso após um transplante com sucesso é a melhor recompensa. Apesar das dificuldades sentidas no dia a dia, particularmente nos últimos anos, os profissionais de saúde não deixaram esta atividade esmorecer. É nosso desejo que o profissionalismo, a vontade de conseguir mais e melhor e a visão desses sorrisos se mantenham.

 

Não há melhor homenagem ao dador do que cuidar do seu novo órgão.

 

Uma mensagem para todos os doentes que aguardam por um transplante.

Desejo que mantenham sempre a esperança sabendo que a qualquer momento esse dia pode chegar. É muito importante que mantenham hábitos de vida saudáveis, cumpram a medicação nas horas e doses prescritas para que quando esse dia surgir, possam receber  o órgão tão ansiado com as melhores condições clínicas e assim aumentar a possibilidade de sucesso do transplante.

 

E, para terminar, uma mensagem para todos os transplantados.

O ser transplantado pressupõe, em paralelo, um grande sentido de responsabilidade. Nunca é demais lembrar que alguém faleceu e mesmo na morte foi generoso ao permitir que os seus órgãos possam salvar uma vida. No caso da dádiva em vida, alguém correu riscos para que a pessoa que recebe um órgão possa viver mais e melhor.

Não há melhor homenagem ao dador do que cuidar do seu novo órgão mantendo estilos de vida saudáveis e cumprindo a medicação prescrita para, assim, poder assegurar maior longevidade do seu transplante.