Foi realizado o primeiro estudo de literacia em saúde à população portuguesa, realizado no âmbito do projeto “Saúde que Conta”, da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) e que teve como base o Questionário Europeu de Literacia em Saúde.

Os resultados desde estudo, e de outros do género, revelam que a maioria dos portugueses inquiridos tem um “nível de literacia em saúde problemático ou inadequado”. Neste sentido, torna-se urgente aumentar a literacia em saúde.

Afinal, em que consiste a literacia em saúde?

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)  este conceito engloba um conjunto de competências cognitivas e sociais e a capacidade dos indivíduos compreenderem a informação, terem acesso a ela e usarem-na de formas que promovam e mantenham a boa saúde. Em suma, estas competências consistem na capacidade para tomar decisões em saúde informadas no decurso da vida diária. Para além disso, permite o aumento da perceção de controlo dos indivíduos sobre a sua saúde, a sua capacidade para procurar informação e para assumir responsabilidades.

A literacia em saúde é vista como um meio para permitir que as pessoas possam exercer maior controlo sobre a sua saúde.

Segundo Berkman, Davis & McCormack (2010), este conceito tem evoluído nos últimos anos de uma perspetiva limitada e centrada nas capacidades individuais para uma abordagem mais ampla, dinâmica e contextual, onde nos situamos. A primeira perspetiva centrava-se na identificação de competências individuais para compreender a informação de saúde necessária para seguir tratamentos médicos. A outra perspetiva dá ênfase à promoção da saúde, onde a literacia em saúde é vista como um meio para permitir que as pessoas possam exercer maior controlo sobre a sua saúde. Esta abordagem vê a literacia em saúde como um ‘capital’, onde tanto as informações de saúde personalizadas como a interação com o sistema de saúde (incluindo negociar e participar criticamente nas decisões de saúde) são fundamentais.

No caso das doenças crónicas, nomeadamente da doença renal, torna-se fundamental desenvolver esta competência, de modo a que o doente conheça melhor a sua doença e possa adaptar-se à mesma. Para além disso, esta competência visa a adoção de comportamentos adequados e promotores da sua qualidade de vida, como ter uma boa dieta alimentar e a prática regular de exercício físico.

Durante vários anos, a visão do modelo biomédico centrava o saber e as tomadas de decisão nos profissionais de saúde e os doentes apenas tinham que aprender e cumprir o que estes lhes diziam. Com o surgimento do modelo biopsicossocial, elaborado e defendido por Engels em 1977, ganha-se uma perspetiva mais holística do ser humano, onde os estados emocionais e os contextos sociais são tão importantes como a componente biológica. Este modelo defende a promoção da saúde e a prevenção das doenças.

Esta visão tem vindo a instalar-se cada vez mais entre os profissionais de saúde, fazendo com que estes olhem de outro modo para os doentes, respeitando as suas necessidades, preferências e valores. Neste modelo, os doentes são ‘atores principais’ e têm uma palavra a dizer.

O sítio https://pelorim.pt/ é um exemplo de promoção da literacia em saúde.

Segundo Lima (2014), a literacia em saúde deve valorizar o modelo bi-direcional em que se reconhece que os doentes, em particular os doentes crónicos, e os seus cuidadores também têm conhecimentos sobre a sua doença que devem ser levados em conta. Neste sentido, foi criada, em França, a Universidade dos Doentes (L’université des patients) pela investigadora  Catherine Tourette-Turgis. Este projeto assenta na ideia do doente como um especialista da sua própria doença crónica. Esta ideia inovadora visa aproveitar todo o conhecimento dos doentes na gestão da sua doença e, em simultâneo, serem certificados com um diploma em Educação Terapêutica. Os objetivos deste projeto são:

  • estudar, aprender, treinar, especializar-se na área de educação terapêutica;
  • validar as suas competências ao longo da experiência de doença crónica e nos seus tratamentos;
  • aprender a transformar a experiência em ensino para os outros;
  • participar na produção de conhecimento e na construção de uma experiência coletiva em saúde;
  • criar um grupo de pacientes/especialistas que desejem ensinar e fazer pesquisa.

Este projeto assenta na literacia em saúde e promove-a junto dos indivíduos. De certeza que seria uma mais-valia algo de semelhante em Portugal, dado o elevado número de doentes crónicos; contudo, apesar de não termos nenhum projeto similar, podemos deparar-nos com múltiplas iniciativas de associações de doentes que promovem a divulgação de conteúdos sobre saúde. Por outro lado, nesta sociedade tecnológica, também os próprios cidadãos já começam a ter uma atitude proactiva e na pesquisa de conhecimentos sobre as doenças.

O sítio https://pelorim.pt/ é um exemplo de promoção da literacia em saúde. Assente nas novas tecnologias, fornece informação escrita (artigos, glossário de termos específicos, testemunhos, notícias e informações sobre a doença renal) para doentes renais, cuidadores formais e informais, profissionais de saúde e comunidade em geral.

Através deste sítio da internet é possível o doente renal sentir-se mais informado e, deste modo, poder questionar os profissionais que o acompanham sobre a sua doença ou aprender a gerir melhor a sua doença.

 

Em suma, um dos objetivos da literacia em saúde é a criação de uma parceria entre os profissionais de saúde e os doentes, aproveitando os saberes de cada um. Os profissionais de saúde regem-se por um corpo teórico na tomada de decisões face a determinada situação; no entanto, os doentes crónicos vivenciam a doença no seu corpo todos os dias, conseguem perceber o que é melhor para eles e têm o direito a poder escolher, mas para que seja uma boa escolha há que ter informação de qualidade e de referência.

 

Espero que a literacia em saúde aumente entre os portugueses nos próximos anos, em particular entre os doentes crónicos, de modo a criar-se uma relação de parceria entre profissionais de saúde e doentes em que ambas as partes observam, escutam, partilham e aprendem!

 

Documentação complementar:

  • Saúde que conta. (2009). Questionário Europeu de Literacia em Saúde aplicado em Portugal (HLS-EU-PT). Acedido a 20 de dezembro de 2014, em: http://www.saudequeconta.org/index.php/site/literacia.
  • Baker, D.W, Wolf, M.S., Feinglass, J. e Thompson, J.A. (2008). Health literacy, cognitive abilities and mortality among elderly persons. Journal of General Internal Medicine23: 723–726. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2517873/.
  • Direção Geral da Saúde. (2004). Plano Nacional de Saúde 2004-2010. Volume 1. Prioridades e Volume 2. Orientações estratégicas. Lisboa. RETIRAR
  • Lima, M.L., Bernardes, S.F. e Marques, S. (2014). Psicologia Social da Saúde: uma nova forma de olhar para a saúde e a doença. Em: M.L. Lima, S. Bernardes e S. Marques (eds.), Psicologia Social da Saúde: Estudos, Programas e Instrumentos. (pp. 13-22)Lisboa. Sílabo. ISBN: 978-972-618-758-5.
  • Nutbeam, D. (2000). Health literacy as a public health goal: a challenge for contemporary health education and communication strategies into the 21st century. Health Promotion International15:259-267. Disponível em: http://heapro.oxfordjournals.org/content/15/3/259.abstract.
  • Pignone, M., DeWalt, D., Sheridan, S. et al. (2005). Interventions to improve health outcomes for patients with low literacy. A systematic review. Journal of General Internal Medicine20:185-192. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1490066/.
  • Sítio da Internet: http://www.universitedespatients.eu/

 

Imagem: “Doctor and Patient with PHRs de andyde sob licença CC BY-NC 2.0