Tive a felicidade de nascer e crescer num meio em que sempre se valorizaram palavras, gestos e ações, que hoje em dia parecem estar a cair em desuso. Ao mesmo tempo, tive a infelicidade de nascer com um problema grave que me tem servido para me fazer crescer, saber sofrer, aprender e oferecer o sacrifício pelos outros.

Sou um apaixonado pela música e pelo bodyboard, desporto que pratico com regularidade. São verdadeiros escapes e terapias, são o meu momento e a minha oração.

Considero-me uma pessoa forte, dinâmica, com garra, modestamente esperta, ativa e educada, mas tudo aquilo que sou, devo à minha família.

Quantos filhos não dizem as mesmas coisas sobre a mãe que têm? As supermulheres que são, as montanhas que moveram, as ventanias que suportaram. Não vou nem quero repetir tudo aquilo que todos dizem sobre uma mãe, pois todos sabemos que cada uma delas é uma supermulher. A minha é tudo isso e muito mais. Em muitas entrevistas pedem-me (felizmente) para falar de mim, da minha música e de como cheguei até aqui. Eu digo sempre que sim e depois penso sempre que quem devia dar um testemunho de vida, falar sobre o que quer que fosse com provas dadas de tudo, deveria ser a minha mãe e os meus irmãos, na medida em que foram eles que me fizeram forte sobre um ar frágil. Tenho muitas histórias para contar sobre cada um deles e aquilo que mudaram em mim, sobre o modo como me inspiraram e me ensinaram a crescer. Tenho histórias de verdadeiras lutas que também eles travaram e de todo o carinho e força que me deram mesmo quando não sabiam o que fazer para me ajudar, mas bastava olhar-lhes nos olhos. Para mim é assim que se explica a palavra ‘Família’ – dizer tudo mesmo quando não se consegue dizer nada.

E assim cresci, com eles e para eles. Considero-me um lutador sim,  mas não só. Considero-me essencialmente uma pessoa como as outras, que faz aquilo que pode com as ferramentas que lhe deram e com outras que foi criando, desenvolvendo e aperfeiçoando. Todos temos problemas, cada um à sua maneira. Não me considero um herói ou uma força da natureza como às vezes (e grato fico) me chamam. Nem tão pouco posso pensar dessa maneira. Acho que é precisamente por não pensar assim que sou como sou. Não ignoro aquilo que tenho ou o que sou, mas não me foco nisso. Tento sempre fazer tudo como uma pessoa normal, tendo sempre noção dos meus limites. E assim também fui educado, nunca como um coitadinho, mas sempre como uma pessoa normal. Fiquei de castigo quando tinha de ficar, era repreendido quando tinha que ser e recompensado quando o merecia. A minha mãe e os meus irmãos são os meus verdadeiros heróis, a restante família e amigos, passo a expressão, a minha heroína. Sou assim porque não posso, nem quero de maneira nenhuma, desiludi-los porque todos eles penaram, sofreram, provavelmente a dobrar, por tudo aquilo que eu sofri. Assim sendo, é minha responsabilidade e dever, manter-me forte, desperto e capaz. Devo-lhes isso tudo e ainda mais.

Perguntaram-me uma vez: Quem é que te salva? Uma pergunta forte, mas muito bem compreendida e feita. Eu respondi com um cliché, mas os clichés existem precisamente porque são totalmente verdadeiros e sentidos. Respondi que é o facto de poder acordar e ter um dia pela frente. Se sofro ou se choro? Isso quer dizer que estou cá, que me deram essa oportunidade. Claro que ninguém gosta de sofrer, mas também podemos com isso aprender e tornar o negativo em positivo.

E aqui entra outra ferramenta muito importante na minha vida, a música. Eu e a música andamos sempre de mãos dadas, desde que me lembro. Cresci com música em casa e sempre quis ter uma banda e uma guitarra. Desde baterias que construía com caixas das bolachas DanCake a guitarras feitas a partir de esferovite e cordas de pastelaria que serviam para fazer os embrulhos. Todos os pretextos eram poucos para estar envolvido ‘no mundo da música’. Cheguei mesmo um dia a fingir que dava um concerto na varanda da casa da minha mãe, com a aparelhagem a debitar Ugly Kid Joe “Neighbor” aos altos berros, e a guitarra (de plástico) fugir-me das mãos e partir-se toda no meio da rua. Foi uma sorte não ter acertado em ninguém.

Até na música fui bem-educado e esta educação nada tem a ver com o que se ouvia ou não, mas sim com a maneira como se ouvia. Sempre me educaram a saber ouvir a música. Aprendia a sentir a música quando via expressões de garra e felicidade na cara da minha irmã a cantar o Summer of 69 do Bryan Adams ou o Do Wah Diddy dos Manfred Man. Aprendia a sentir a música quando o meu irmão se sentava no chão com a cabeça encostada no sofá, fechava os olhos e ouvia em modo repeat o Dreamer dos Supertramp. Eu perguntava-me o porquê de tantas vezes e depois percebi… Aprendi a sentir as letras das músicas e quando não percebia, ouvia de novo e ainda de novo e mais uma ou outra vez. E quando mesmo assim não percebia, deixava para mais tarde, para o momento certo, para quando achasse que já tinha maneira de perceber. Devo isso aos meus pais que ainda hoje comentam as letras das músicas e dizem: Isto é tão bonito. E assim cresci completamente viciado em música e hoje tenho a felicidade de trabalhar com ela. Sou músico e sound-designer.

E como é que me posso queixar? Não posso e nem tenho esse direito. Queixo-me quando tenho dores e às vezes digo: Não mereço isto. Não sou de ferro nem a minha história é cor-de-rosa, mas é uma história e é uma oportunidade para a escrever. É talvez uma forma de fazer pensar, de vos fazer pensar, na vida e nos pequenos nadas que damos como garantidos. De nada serve viver de medos ou de “se’s”. É somente um desperdício de uma vida que outro não viveu. Poderei, em parte, não ser exemplo para alguns, devido a comportamentos mais arriscados que tenha, mas não procuro ser exemplo, procuro aproveitar enquanto estou cá, talvez por vezes custe aos que me rodeiam. É o meu bem que querem, tento respeitar e ouvir o máximo o que têm para me dizer.

Em 2012 lancei o meu primeiro disco “So Much Of Me“. Um disco em que o título diz tudo e que dá nome a uma música que escrevi para os meus sobrinhos Matilde, Francisco, Madalena e Sebastião que, ainda tão pequeninos e sem perceberem, já me salvaram tantas vezes.

Um pequeno escape, ou escapes, que nunca antes tinham sido ditos ou escritos. Está disponível no itunes, amazon ou em qualquer outra plataforma digital e em disco físico no El Corte Inglês de Lisboa e Gaia. Podem conhecer mais sobre mim e a minha música em www.thomasanahory.com.

 

Chamo-me Tomás Anahory e nasci com uma má formação das vias urinárias que me provocou uma insuficiência renal crónica e osteoporose (Osteodistrofia Renal). Entre as múltiplas cirurgias, entre as plastias da bexiga para poder salvar os rins nativos, chegou uma altura em que  fiz 10 anos de hemodiálise, fiz o meu segundo transplante em junho de 2012 e hoje em dia tenho que fazer tratamentos de quatro em quatro horas para manter o meu rim – neste momento o meu melhor amigo – comigo.  Lancei em novembro de 2013 o meu segundo disco “Thank Your Lucky Stars” em gesto de agradecimento a este novo e tão desafiante percurso e acontecimento da minha vida.

Vou fazendo o meu desporto quando posso e trabalho a fazer aquilo que mais gosto: música.

Tenho 32 anos de uma vida literalmente vivida com o apoio de todos os que me rodeiam. Se estou cá, se estamos cá, provemos que somos dignos disso.

 

I’m a man on fire
Walking through your street
With one guitar
And two dancing feet
Only one desire
That’s left in me
I want the whole damn world
To come dance with me”

Edward Sharpe and The Magnetic Zeros

 

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