A história de um transplante renal

-internamento, a baixa e o regresso-

 

(A última parte do testemunho do Paulo. Relembre a primeira e a segunda parte.)

 

Internamento

Acordei quando me estavam a mudar para a cama do quarto. Havia muita gente à minha volta. Perguntei pela Margarete e disseram-me que ela estava bem. Em meu redor tinha tubos, fios e máquinas por todo o lado. Não me lembro ao certo de quanto tempo fiquei na cama até me puder levantar, mas nas primeiras noites dormi mal por causa do barulho dos aparelhos, das pessoas à volta e do desconforto.

A recuperação é um processo cheio de emoções e que coloca muita coisa em perspetiva. A dependência que temos de outros para tomar banho (nos primeiros tempos é na cama), para ir à casa de banho, para comer, para nos movimentarmos ou chegarmos às coisas, tudo isto expõe-nos e torna-nos muito humildes. Por outro lado, as pequenas grandes vitórias do dia a dia dão-nos ânimo. O levantar-me pela primeira vez da cama, o dominar a arte de andar com o suporte do soro, a primeira ida sozinho e com sucesso à casa de banho, o primeiro banho sozinho e a otimização desse processo nos banhos que se sucedem. Conseguir fazer a barba, ao fim de mais de uma semana. Conseguir mudar de roupa como se de um profissional se tratasse. Poder sair da cama, ir comer ao refeitório e andar, andar muito! Devo ter feito quilómetros nos corredores da Unidade de Transplante do Hospital Curry Cabral. Andar fazia-me bem, desentorpecia o corpo e a cabeça.

A recuperação é um processo cheio de emoções e que coloca muita coisa em perspetiva.

Para além das pequenas, mas importantes melhorias no dia a dia, falar com a Margarete, o iPad e o router wifi foram fundamentais para conseguir ‘sair’ do hospital, navegar pelo mundo, ler, falar com colegas e os amigos e responder a alguns mails do trabalho.

Durante o internamento, conheci pessoas muito diferentes na idade, no tipo de transplante (éramos maioritariamente transplantados renais, hepáticos, pancreáticos, biliares ou uma combinação destes), na trajetória de vida, na profissão, na reincidência de problemas e internamentos, na origem geográfica e no sucesso (ou falta dele) relativamente à cirurgia.

O Mira, um grande amigo que ficou desta experiência, o João que era de Cabo Verde e as suas histórias de cachupas, o Mário e do seu passado impressionante, o Sr. Alberto, o Francisco, que foi um dos primeiros transplantados renais do país, o Vítor, que recebeu a notícia que ia ser transplantado no refeitório a meio da hora de jantar, a Gabriela, cujo segundo transplante custou a ‘pegar’, mas que no final correu bem, um senhor ‘incomodativo’ que foi internado para fazer um tratamento e que falava pelo corredor em voz alta, mais parecia que estava na taberna, o irmão do Jorge Jesus, que vim a saber é Sportinguista ferrenho e outros que apenas conheci de vista.

Nestes casos e em muitos outros de que ouvi falar, vi o sucesso e o insucesso deste tipo de cirurgias, vi aqueles que recorrentemente têm de ser internados para tratar complicações, vi os primeiros, mas também os segundos transplantes quando o primeiro corre mal ou ‘chega ao fim’, vi os transplantes que não correm bem, vi as complicações pós-operatórias e o regresso ao bloco. Vi vários cenários do que me podia ter acontecido ou do que me pode ou não vir a acontecer. É muito intenso.

Vi o sucesso e o insucesso deste tipo de cirurgia. 

As rotinas também se acabam por instalar. As horas para a toma dos medicamentos, as horas para as refeições, o momento diário de adivinhar o que íamos comer, conseguir apanhar a melhor altura da manhã para ir tomar banho antes do chão ficar inundado, os jogos do Benfica que eram vistos no nosso quarto em conjunto com alguns dos elementos de enfermagem ou assistentes operacionais. As visitas quase diárias da minha mãe. Os que iam chegando e os que iam tendo alta.

Aos poucos ia-me convencendo de que iria passar o Natal no hospital, mas meio a brincar e meio a sério, uma das médicas de serviço perguntou-me se eu queria sair e passar o Natal em casa. Fiquei muito feliz. O meu sogro veio buscar-me e estava de volta a casa e junto da Margarete. Foi o fim do que me pareceu uma longa etapa.

 

Período da baixa

Tive quatro meses de baixa. Costumo dizer, a brincar, que fui ter um filho. Bem vistas as coisas até é uma boa alegoria. Tenho dentro de mim algo que tenho de cuidar para sempre e que me enche de alegria.

Quase todas as semanas tinha ‘atividades hospitalares’: consultas, exames, análises, medicamentos.

Tenho dentro de mim algo que tenho de cuidar para sempre e que me enche de alegria.

Nestes quatro meses fiz algo que nunca tinha verdadeiramente feito. Assumidamente e conscientemente desliguei-me por completo do trabalho. Arranjei outras distrações e afazeres, por exemplo tentei começar a aprender chinês, via alguma televisão, mas ocupei a maior parte do meu tempo a ler e a aprender a trabalhar com WordPress, uma plataforma de gestão de conteúdos que nos permitiu desenvolver este site.

 

O regresso

O regresso veio acompanhado de uma nova vida. Com o reiniciar do contador e com ‘o aumento do prazo de validade’ ganhei um ânimo enorme e uma vontade de fazer coisas, de explorar e aproveitar tudo ao máximo, sempre que possível. No entanto, o transplante também me deu um profundo sentido de responsabilidade. O que me foi dado e a sorte que tive têm um gesto e um rosto. Sem a Margarete ao meu lado, sem esta dádiva de vida nada disto teria acontecido. Por vezes, penso o que seria de mim se as nossas vidas nunca se tivessem cruzado, onde estaria e como estaria. Honestamente, prefiro nem pensar. À Margarete estou eternamente grato.

Ganhei um ânimo enorme e uma vontade de fazer coisas, de explorar e aproveitar tudo. 

Uma mensagem de agradecimento à Célia, à Bárbara, à Edite, à Zélia, à Vera e aos restantes colegas de trabalho que me têm acompanhado de perto e se têm adaptado a este processo.

Uma referência a todos os que estão connosco e olham por nós e aos elementos e equipas clinicas que desde 2005 nos acompanham, à Unidade de Transplantação do Hospital Curry Cabral e a um país que tem um Serviço Nacional de Saúde que possibilita que doentes tenham acesso universal a tratamentos e cirurgias do calibre de um transplante renal.

 

Imagem:
The Angel of the North de Ian Britton sob licença CC BY-NC 2.0

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