A história de um transplante renal

-do primeiro sinal de alerta à diálise-

 

O sinal de alerta

Olhando para trás, consigo identificar o primeiro sinal de alerta. Estava há pouco tempo na universidade quando tive um episódio de hematúria. Fiz análises através do médico de família e, aparentemente, não existia nenhum problema. “Convém ir acompanhando”, disse a médica de família, sem dar grande relevância à situação e sem qualquer explicação.

Olhando para trás, consigo identificar o primeiro sinal de alerta.

Aquele sentimento de ‘imortalidade’ próprio da idade, o facto de ninguém ter dado grande importância àquele episódio, a falta de análises de rotina e de manifestações, fez-me esquecer durante vários anos o que aconteceu.

 

O diagnóstico e a pré-diálise

Numa das vezes em que fiz análises de rotina a Margarete, minha esposa, sugeriu que fizesse, algo não estava bem. Com exceção de um ou outro parâmetro, todos os resultados estavam alterados. Depois de realizados exames e análises mais completas, na consulta de nefrologia ficou claro que tinha problemas renais sérios.

Demorei algum tempo a encaixar o que estava a acontecer e as consequências do que me foi diagnosticado. Diálise, restrições alimentares, fístula, medicação, transplante renal, biópsia, controlo do peso, … nada disto fazia ainda parte da nossa vida, mas não tardou.

Na consulta de nefrologia ficou claro que tinha problemas renais sérios.

Rapidamente se iniciou um acompanhamento próximo e regular com o objetivo de retardar ao máximo a degradação da função renal. Começaram as análises, os exames, as consultas e a medicação.

Fiquei com um aspeto inchado derivado da medicação e da reduzida função renal, a alimentação foi adaptada para evitar as proteínas, a preferir os vegetais, o peixe e a água passou a andar sempre comigo.

Ao fim de algum tempo, fiquei com cataratas, um efeito secundário de um dos medicamentos que tomava. Fui operado a ambas as vistas para corrigir o problema.

Os resultados das análises, inevitavelmente, iam-se degradando. O fantasma da diálise começou a pairar e com ele instalava-se um sentimento de tristeza, de impotência e de medo face ao futuro.

Tudo isto ia sendo vivido em conjunto. Muito pouco demos a conhecer a outros. Apesar de conscientes da situação e das consequências, não fazíamos um drama, mas sendo uma doença com determinadas limitações, chegou a uma altura em que tive de partilhar com a minha chefe.

O caminho de regresso foi um desespero. Ia começar a hemodiálise.

Os valores da creatinina tornam-se, de alguma forma, uma obsessão. Um valor que sobe constantemente e que quando chega a determinado valor torna a diálise obrigatória. Fiz a cirurgia de construção do acesso vascular no pulso esquerdo e que iria permitir que eu pudesse ser puncionado com as agulhas da máquina de diálise e substituir a função dos meus rins por uma máquina.

Depois de duas infeções urinárias e de o valor da creatinina dar um salto e não baixar, começou uma nova fase. Nessa consulta, a Margarete não pôde ir comigo e fui sozinho. O caminho de regresso foi um desespero. Ia começar a hemodiálise. Fui invadido por inúmeras questões: “o que vai ser de mim?”, “que prisão será esta?”, “como serão as coisas no meu trabalho?”

 

(Conheça a segunda parte deste testemunho.)

 

Imagem:
<sem nome> de ioana sob licença CC BY-NC-ND 2.0

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