André Novo é um jovem profissional de saúde, oriundo de Bragança, que tem dedicado a sua vida aos outros, não apenas através da enfermagem, mas também pelos trabalhos de investigação.

Enfermeiro, especialista em reabilitação, André tornou-se professor na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Bragança e investigador no Centro de Investigação em Desporto, Saúde e Desenvolvimento Humano.

A qualidade do seu trabalho foi reconhecida pela comunidade profissional não apenas em Portugal, mas também além-fronteiras. Em 2011, foi galardoado com o prémio de Jovem Investigador Europeu, atribuído pela Federação Europeia das Associações de Medicina do Desporto.

Atualmente, é presidente da Associação Portuguesa de Reabilitação de Insuficientes Renais (Reab.IRC), um desafio que aceitou pela vontade de fazer sempre mais e mais por esta causa.

A equipa do Pelo Rim foi falar com ele para saber mais sobre o trabalho da associação que preside, mas também sobre os seus projetos e conquistas pessoais.

 


 

Qual a missão da Associação Portuguesa de Reabilitação de Insuficientes Renais e qual o seu papel junto dos doentes renais crónicos?

A Associação Portuguesa de Reabilitação de Insuficientes Renais, mais conhecida por Reab.IRC, é uma associação multidisciplinar com o único objetivo de promover a reabilitação física e mental dos pacientes com doença renal. A Reab.IRC é constituída por um grupo de pessoas com experiências profissionais diversas, o que acaba por enriquecer a associação. Dela fazem parte dietistas, nutricionistas, médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, fisiologistas do exercício e investigadores na área da bioquímica. Esta diversidade torna complementar o trabalho que estamos a tentar desenvolver. Atualmente estamos a tentar fazer chegar ao maior número de profissionais possível a nossa experiência decorrente do trabalho que temos desenvolvido ao longo dos últimos anos, especialmente na área do exercício físico com pacientes em programa regular de hemodiálise. Para além deste objetivo, temos também a intenção de promover hábitos alimentares adequados e de congregar os profissionais de saúde que se dedicam a estas práticas. Para finalizar, tentamos fazer chegar a esses profissionais a informação científica mais importante de cada tema, de forma a divulgar as boas práticas de reabilitação nesta população tão específica. Ainda estamos a dar os primeiros passos, mas acreditamos que são passos firmes em direção a um futuro mais promissor na consecução destes objetivos.

 

Qual a real importância de uma correta reabilitação?

A doença renal crónica (DRC) é hoje considerada um problema de saúde pública mundial. Estima-se que afete 1500 pessoas por cada milhão de habitantes, em países com alta prevalência como o Japão ou os Estados Unidos da América. Em Portugal estima-se que possa afetar cerca de 800 mil pessoas sendo que mais de 10 mil estão em programa regular de hemodiálise. A Administração Central do Sistema de Saúde estima que, em 2010, o Sistema Nacional de Saúde tenha gasto perto de 246 milhões de euros com estes pacientes.

Estamos, pois, a falar de uma atividade que tem investido muito dos seus custos apenas nos tratamentos clínicos e farmacológicos e muito pouco naquilo que é direcionado ao bem-estar e à qualidade de vida destas pessoas. Acreditamos que uma visão integrada, cujo foco seja a pessoa e não o tratamento, terá um impacto direto positivo no tal bem-estar e qualidade de vida que referia e um impacto indireto nos custos associados ao tratamento.

 

Que especificidades tem a reabilitação de um doente renal?

Está bem documentado que os pacientes com doença renal crónica, em programa regular de hemodiálise, estão limitados na sua capacidade física global entre 60% a 70% do esperado para a sua idade, quando comparados com indivíduos saudáveis. A maior parte dos pacientes com DRC são sedentários e, num estudo de Johansen, a atividade física em pacientes submetidos a hemodiálise foi diminuindo progressivamente 3,4% por mês, durante os 12 meses de observação. Os pacientes com DRC têm uma capacidade funcional reduzida e um consumo pico de oxigénio inferior ao da população saudável e há resultados que sugerem que, como para a população geral, os comportamentos sedentários estão associados a um aumento da mortalidade em pacientes com doença renal crónica. Vários fatores podem ser responsáveis pela diminuição da capacidade funcional destes pacientes, incluindo a perda de massa muscular, anemia de causa renal, inatividade e desnutrição. Apesar do progresso tecnológico na terapia substitutiva renal e dos avanços médicos, os pacientes continuam limitados fisicamente o que conduz a um impacto negativo para a sua saúde e qualidade de vida o que, consequentemente, se reflete nas hospitalizações e inclusivamente na mortalidade.

Estas são, na generalidade, algumas das especificidades que obrigam a que a visão da reabilitação de um doente renal tenha uma abordagem diferente.

 

O que o levou a enveredar pela enfermagem?

A área da saúde sempre esteve presente na minha vida. Não posso esconder que, neste caso, provavelmente fui influenciado, mesmo que inconscientemente, pelos meus pais, ambos profissionais na área da saúde, mesmo não tendo tido nenhuma interferência na minha escola. Normalmente, quando se responde a uma pergunta deste género há a tendência para romantizar a resposta. No meu caso houve um pragmatismo muito grande: na altura da candidatura ao ensino superior desenvolvi uma folha de Excel com todos os cursos que havia em Portugal e fiz uma análise SWOT a cada um deles; no fim, depois de analisar todos os prós e os contras, escolhi o curso que se adaptava mais a mim.

 

Como surgiu o interesse pela área do desenvolvimento físico e reabilitação?

O interesse por esta área surgiu muito antes da entrada no ensino superior. Sempre fui um entusiasta do desporto, sendo que fui atleta federado de hóquei em patins durante 13 anos, mas tive de desistir da modalidade por uma grave lesão traumática aos 16 anos. Logo no primeiro ano no curso de enfermagem comecei por colaborar com o Grupo Desportivo de Bragança, enquanto massagista. A partir daí a reabilitação passou a ter uma presença constante na minha vida. Depois disso continuei a formação com a especialidade em enfermagem de reabilitação, já enquanto enfermeiro num serviço de Ortotraumatologia. Após isso concluí o Mestrado em Enfermagem de Reabilitação e o Doutoramento em Ciências da Atividade Física e do Desporto, com trabalhos precisamente na área do Exercício físico com pacientes hemodialisados, desenvolvidos na clínica de Hemodiálise de Mirandela. Atualmente sou docente da Escola Superior de Saúde de Bragança.

 

Quais as principais conclusões da sua investigação sobre a influência do exercício físico na qualidade de vida de doentes com doença renal crónica?

As principais conclusões dos trabalhos que temos desenvolvido prendem-se com a melhoria da capacidade funcional destes doentes o que diretamente se repercute na sua qualidade de vida. Falamos em melhorar algumas capacidades físicas, mas também na alteração dos estilos de vida para dar resposta ao ditado: mais movimento, mais saúde.

 

Foi galardoado com o Prémio de Jovem Investigador Europeu atribuído pela Federação Europeia das Associações de Medicina do Desporto, em 2011, na Áustria. Que importância teve para si a atribuição deste prémio?

Este prémio acabou por ser a consequência natural do trabalho de excelência que se desenvolve na Clínica de Hemodiálise de Mirandela. Obviamente que não estava à espera de ser o escolhido, entre mais de 500 trabalhos de investigadores de todo o mundo. Mas sempre acreditei que o trabalho que era desenvolvido tinha qualidade. Mas mais que a importância do prémio em si, aquilo que permitiu foi tornar este projeto um pouco mais conhecido em Portugal e, com isso, ter tido mais divulgação daquilo que estávamos a fazer.

 

Essa distinção fê-lo querer traçar outras metas ao nível da investigação?

Não são os prémios que nos devem orientar. Mas é claro que ajudam a perceber que estamos no bom caminho. Após este projeto que era desenvolvido inicialmente com exercício físico nos 30 minutos antes das sessões de hemodiálise, propusemos a integração do exercício físico durante as sessões de hemodiálise. Neste momento é o tipo de exercício que mais temos divulgado um pouco por todo o país.

 

Está envolvido em algum projeto de investigação atualmente? Qual?

Tenho tido a sorte de conhecer gente fantástica com quem tenho trabalhado em diversas áreas. Talvez destaque, a título de exemplo, um trabalho que temos desenvolvido de avaliação da capacidade funcional de transplantados de pulmão, um outro desenvolvido no Brasil sobre reabilitação física no pós-operatório imediato em pacientes submetidos a cirurgia de revascularização do miocárdio, ou ainda trabalhos na área da reabilitação cardíaca em pessoas com insuficiência cardíaca agudizada ou um outro sobre cinesiterapia respiratória em pessoas com oxigenoterapia domiciliária.

 

Os doentes renais estão sensibilizados para a prática de atividade física?

Já estiveram menos. Não que isso fosse culpa deles, mas sim da sociedade que institui que qualquer pessoa com qualquer doença crónica deve ser protegida numa redoma e estar o menos sujeita possível ao ambiente que as rodeia. Costumo dizer que a maior parte das famílias, querendo o melhor para os seus, os tenta colocar sentados num sofá o dia inteiro a ver televisão. Nós tentamos inverter um pouco essa tendência, demonstrado que aumentar os níveis de atividade física é benéfico.

 

Considera que os profissionais de saúde estão conscientes das vantagens da prática de atividade física?

Creio que na generalidade a esmagadora maioria dos profissionais dirá que mais atividade física é benéfica. Mas o problema que se coloca aos profissionais de saúde é conseguirem responder a perguntas como “quanto tempo faço?”, “quanto exercício faço?”, “com que intensidade?”, “quantos dias?”, “sempre o mesmo tipo de exercício?”, “o que devo fazer para melhorar?”. Quanto a isto, ainda há um deficit muito grande de formação na generalidade dos profissionais de saúde.

 

O que o fez aceitar o desafio de ser presidente da Associação Portuguesa de Reabilitação de Insuficientes Renais?

A Reab.IRC é um projeto de um conjunto de profissionais que se foram conhecendo ao longo dos anos e que tinham objetivos comuns na área da reabilitação dos pacientes renais. Com a constituição da Associação temos agora uma plataforma oficial que facilitará a divulgação de informação e que tentará promover o que de melhor se faz nesta área, não só em Portugal, mas também no estrangeiro. O desafio foi encarado por não me sentir conformado com o atual estado das coisas e tentar fazer a diferença na vida das pessoas.

 

Tinha ou ainda tem algum objetivo a cumprir durante a sua passagem pela presidência da associação?

Como já referi, a Associação é bastante jovem. Mas apesar de estar a dar os primeiros passos, creio que serão passos firmes no sentido de sermos bem-sucedidos. Estamos a construir um projeto que cresce todos os dias e é isso que tem sido o grande pilar desta associação. Em termos de objetivos, enquanto houver alguém que nós entendamos que podemos e conseguimos ajudar, cá estaremos.

 

Qual o maior dos desafios: ser presidente, exercer enfermagem, investigar ou dar aulas?

O maior desafio é conseguir conjugar todas as atividades em simultâneo. E sempre que o cansaço aperta mais um pouco, não há como relembrar o velho ditado “Quem corre por gosto não cansa”. É isso que tento fazer todos os dias.

 

 

 

 

Imagem:
Foto de André Novo gentilmente cedida pelo próprio

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